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 STONE AGE

Por Rodrigo Vasconcelos

Publicado em 03 de dezembro de 2015

 

Há muito tempo os nossos antepassados lutaram para sobreviver em condições, as mais adversas, e sem o auxílio das tecnologias mais avançadas. Para isso tinham de caçar e coletar, desenvolver a agricultura, criar e aperfeiçoar ferramentas, além de lutar para conseguir recursos importantes (como madeira e pedra).

 

 

 

Figura 1: Um dos lados internos da caixa. É isso mesmo, o autor do jogo é um sociólogo.

 

 Trabalhar essa temática na sala de aula é sempre uma tarefa árdua. Principalmente porque essa discussão requer sempre um exercício de abstração. Embora existam excelentes livros e filmes sobre os primórdios da humanidade, em turmas de 6º ano do fundamental (por exemplo) esse nível de abstração ainda não foi construído. Mas, com Stone Age essa tarefa pode ficar bastante prazerosa, tanto em turmas de 6º ano do fundamental (observe a idade dos alunos) como em turmas do 1º ano do ensino médio.

Figura 2: Caixa do jogo. Será que dá para saber qual a temática?

 

Publicado em 2008, pela Rio Grande Games (e no Brasil pela Devir, em 2015), Stone Age pode ser jogado por 2 a 4 jogadores e tem classificação indicativa a partir dos 10 anos de idade. Uma partida dura entre 60 e 90 minutos, a média de duração de duas aulas geminadas. Com regras bem simples e um visual belíssimo Stone Age deve agradar bastante nas aulas de História, Sociologia e Filosofia.

 

Figura 3: Em um dos lados internos da caixa do jogo o responsável pela arte do jogo. E (no detalhe) um amassado no meu exemplar.

 

Mas, por que utilizar Stone Age na sala de aula?

Como dissemos acima, uma das maiores dificuldades em tratar do período compreendido como Pré-história é a necessidade de abstração para entender conceitos e práticas muito distantes da realidade atual dos alunos. Como explicar, por exemplo, o papel da agricultura no processo de sedentarização do homem? Aliás, o que é mesmo sedentarização? Como é possível explicar essas questões através do jogo Stone Age?

 

Figura 4: Campo de caça e coleta. Parte do tabuleiro e as fichas de comida.

 

Nos primórdios da humanidade os homens eram nômades. E isso aparece no jogo na possibilidade de cada jogador poder colocar os seus trabalhadores em quaisquer áreas do tabuleiro. Uma das áreas fornece alimentos. Os alimentos são necessários para alimentar o seu povo no fim de cada rodada. Aqui se encontra um ponto de tensão legal do jogo que traduz as dificuldades do período. No entanto, à medida que um jogador vai investindo em agricultura a necessidade de enviar os seus trabalhadores para o campo de caça e coleta vai diminuído.

 

 Figura 5: Centro do tabuleiro onde é possível ver o Campo, a Cabana e o Fabricante de Ferramentas. Além do Patriarca (jogador inicial).

 

A alimentação no fim de cada rodada é a parte do jogo que mais é discutida entre os jogadores de Stone Age. Fóruns e listas de discussões intermináveis existem sobre criar ou não regras para essa parte do jogo. Não é nossa intenção trazer para o texto esse debate (até porque não é o objetivo da Resenha Pedagógica), mas também não podemos passar ao largo das discussões. Por quê? Se você caro leitor perguntar se gosto de mudar as regras dos meus jogos.

Figura 6: Tabuleiro individual. Ferramentas, alimentos, recursos, cartas de civilização e construções.

 

A minha resposta será: depende. Com os meus grupos de jogo, a minha resposta é definitivamente NÃO. Mas, para a sala de aula, a resposta é SIM. Calma! Deixe-me explicar. Parte do grande prazer em levar os jogos para a sala de aula é recriá-los, adaptá-los de acordo com os objetivos estabelecidos para a aula. Nem sempre isso é necessário. Mas com o Stone Age, acho interessante manter o ponto de tensão na alimentação. Faço alterações significativas: cada trabalhador não alimentado morre (ainda é possível trocar recursos para alimentar), mas o seu jogador não perde pontos de vitória. Embora seja uma mudança muito drástica queremos exemplificar a dificuldade de sobreviver na Idade da Pedra.

Com essa alteração esperamos também mostrar a importância da agricultura e da domesticação dos animais no processo de sedentarização do homem.

Figura 7: A Floresta, ainda é possível a discussão sobre a exploração dos recursos naturais.

 

Outro conceito que pode ser explorado em uma partida de Stone Age é a noção de comunismo primitivo. Tudo que era conseguido na Idade da Pedra era fruto de trabalho coletivo e, portanto, pertencia ao grupo. No caso de Stone Age isso é muito bem exemplificado nas tentativas de obtenção de recursos: quanto mais trabalhadores colocamos em uma mesma área, maiores serão as chances de conseguirmos êxito na atividade. Os recursos obtidos são utilizados para as melhorias das condições de vida da tribo (representados no jogo pelas cartas de civilização e as construções).

 Figura 8: Os recursos (madeira, argila, pedra e ouro) são usados para conseguir as construções – que dão pontos durante a partida.

 

As ferramentas possibilitam aumentar a produção e obtenção de recursos no jogo. E isso tem a ver com a própria temática do período abordado. Imagine caçar apenas com a força dos braços e pernas. Quão difícil essa tarefa não seria? Agora imagine realizar a mesma atividade podendo contar com uma lança afiada. Além do mais as ferramentas podem ser aperfeiçoadas, tornando-se cada vez mais eficazes. Isso é muito bem representado em cada partida.

 

Figura 9: As cartas de civilização dão bastantes pontos ao final de cada partida. Destaque para a imagem no verso das cartas, representando pinturas rupestres.

 

Em Stone Age os jogadores pontuam através das construções e das cartas de civilização. E estes dois elementos podem ser explorados na sala de aula para debater sobre a complexificação das sociedades e o surgimento das cidades. Vários elementos aparecem nas cartas de civilização e entre elas devemos destacar as de tecnologia (com fundo verde). Muito pode ser discutido a partir destas cartas.

Figura 10: Detalhe da folha de cartas de civilização.

 

Outra questão que pode e deve ser discutida é o patriarcado. E essa discussão pode ser feita por um elemento que aparece de maneira sutil no jogo: a ficha de jogador inicial.

 

Figura 11: A ficha de jogador inicial, o chefe da tribo (Lulinha).

 

Representada por uma espécie de chefe tribal a ficha do jogador inicial pode ter um enorme poder para suscitar o debate sobre o patriarcado. Simplesmente pelos questionamentos que podem ser levantados, tais como: por que não pode ser uma chefa? Por que as mulheres não aparecem na História da humanidade como personagens importantes? Caros professores não perca a oportunidade de debater tais questões. Principalmente por que com frequência elas são levantadas pelos próprios alunos.

Vale lembrar que os jogos apresentados até agora não foram construídos para finalidades pedagógicas. E essa coluna se presta às nossas reflexões sobre as possibilidades da utilização de nossos jogos com esta finalidade. Não desejamos aqui criar receitas prontas que devam ser seguidas à risca. Ao contrário, esperamos que vocês (juntos com seus alunos) adaptem, recriem, reconstruam novos caminhos no uso dos jogos em sala de aula.

Figura 12: Imagem do tabuleiro do jogo com as peças dispostas. É ou não uma obra de arte?

 

Acreditamos que Stone Age é um excelente jogo para a sala de aula por vários motivos. A facilidade de suas regras, a profundidade temática, a arte presente nos componentes, mas principalmente pelas questões que podem ser levantadas e/ou exploradas a partir de uma partida. Com Stone Age você e seus alunos viverão na Idade da Pedra durante uma partida.

Quer saber mais sobre Stone Age? Acesse a Ludopédia.

 

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