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Entrevista exclusiva com o professor Rafael Rocha. Rafael é Pedagogo, Mestre em Educação, Especialista em ludocriatividade e rpgista. Atua principalmente na formação de professores, gestão de terceiro setor e design de jogos educacionais. Também é Editor da Revista Mais Dados.

 

Como se deu o seu primeiro contato com o RPG e de que forma percebeu suas possibilidades pedagógicas?

 

O primeiro contato foi informal, com 10 anos de idade, (1993), num encontro entre amigos. O RPG chegou primeiro a mim como sujeito antes de ser educador; ele que foi me educando. Eu simplesmente sentia o prazer do jogo e como os saberes nele inseridos provocavam experiências intensas. No 1° semestre da graduação já havia começado o estudo sobre psicologia educacional, métodos, ferramentas e teorias pedagógicas que dialogassem com o RPG. Isso por volta de 2005.

 

 

Como utilizou o RPG pedagógico pela primeira vez e quais as dificuldades encontradas naquela época?

 

A primeira vez fiz um experimento em uma oficina semipresencial de 4 meses, para colher dados para minha monografia. Era uma tentativa de desenvolver competências para o mercado de trabalho: uma estrutura precária de um RPG Empresarial. A principal dificuldade foi o participante aceitar jogar, pois os jogos naquele momento eram atividades em descrédito para adultos. Infelizmente, a Pedagogia e a vida adulta, condicionadas pelo senso comum, visualizam o jogo como elemento pertencente apenas à infância. Então, alguns participantes tinham receio de se entregar à experiência lúdica, cerca de 10%, e acabaram ridicularizando o processo. O restante, se divertiu muito e o objetivo foi atingido.  

 

Como utiliza o RPG pedagógico atualmente?

 

Atualmente, eu não uso exatamente o RPG, mas uma estrutura própria denominada Metodologia Role Playing, criada em 2011, e desde então vem evoluindo com o complemento de outros elementos como cartas, bonecos e objetos cênicos, assim como mecânicas de tabuleiros e Larps.  Desde 2011, promovo cursos de capacitação para formação de professores narradores e Design de jogos educacionais. Em oportunidades esporádicas, sou convidado por instituições para realizar aplicações ou mesmo em eventos.

 

Poderia explicar melhor como é a Metodologia Role Playing?

 

Sim, a Metodologia role playing está descrita no livro Narrativa da imaginação: proposta pedagógica, metodologia role playing e reflexões sobre educação. Ela segue 5 passos: 1°) seleção do material e identificação dos conceitos chaves; 2°) recomposição dos conceitos chaves em formato de narrativa segundo a Jornada do Herói mitológico; 3°) Narrativa (em um padrão especifico: tem 3 níveis de narrativa variando de acordo com a turma); 4°) debate e conceituação da experiência (isso, normalmente ocorre na mesma aula); 5°) valorização e resgate das experiências (isso ocorre em outras aulas). 

 

Os professores que participam dos cursos vão espontaneamente? 

 

Sim, procuro não ameaçar ninguém, mas faço divulgação escola por escola e pela secretaria de educação.

 

Eles sabem com antecedência da metodologia? 

 

Não, eles aprendem em um processo, nada é dado por completo, pois devem refletir sobre cada etapa.

 

Qual a reação dos mesmos? 

 

Tenho sempre dois tipos de alunos os Eufóricos que querem fazer isso pelo resto da vida, e aquele que acham que não vão conseguir e largam o curso.

 

Saberia informar o percentual de quantos cursistas passam a utilizar o RPG em suas aulas após o curso?

 

Normalmente todos os que não fariam, deixam o curso antes do final.  Esclareço a todos que é apenas um método de vários, a ideia não é catequizar o professor, mas deixá-lo mais rico quanto a seu arsenal metodológico. Alguns aplicam com maior frequência que outros, porque dá um certo trabalho montar uma aula narrativa.

 Prof. Rafael RochaProf. Rafael Rocha

Sobre o RPG, que benefícios percebeu a partir do seu uso?

 

Bom, o foco primário desse processo, na minha opinião, não é a aprendizagem (Pasme!) mas a melhoria na qualidade das relações professor-aluno e entre alunos. Antes que a aprendizagem cognitiva ocorra, é necessário um trabalho com arte, expressão e emotividade. É necessário desenvolver a criatividade, a dúvida e os por quês, isso é o benefício, criar condições propicias a educação.

 

Alguma vez a coordenação de ensino / pais / alunos rejeitaram o uso do RPG como instrumento de ensino?

 

Há, sim, alguns alunos acham que é puramente bagunça. Recordo que uma vez em uma escola do estado: os alunos brigaram muito porque eles não aceitaram a autoridade do professor-narrador, queriam fazer o que queriam e como queriam. É um processo normal, no decorrer de novas sessões eles compreenderam o funcionamento da mecânica, e não houve mais esse problema. É sempre difícil para o aluno, entender sobre como lidar com a liberdade se eles não a têm na escola.

Coordenações não tem a devida paixão pelo novo, muitas vezes escolas falavam "isso não é aula, é recreação" ou "temos que ver se é possível aplicar isso, precisa esperar a inspetora da superintendência de ensino voltar da licença maternidade" entre outras situações, bom... citando Nicolas Roerich "e nós continuamos tentando".

 

 Que dificuldades visualiza atualmente na ampla aplicação do RPG na Educação?

 

Bom, acredito que a falta de consciência sobre 3 pontos: 1°) Saber jogar RPG não te capacita para trabalhar com ele em escola; 2°) Professores que nunca jogaram, não sabem trabalhar com o mesmo, mesmo que leiam todos os livros, artigos e monografias do mundo. 3°) O RPG não foi projetado para a escola, mas seus elementos devidamente articulados podem promover uma educação de superior qualidade, se isso não for compreendido, a estrutura não vai funcionar.

Acredito que a dificuldade chave está na crença que todos podem aplicar o RPG na educação sem o devido estudo e experiência. 

 

Houve algum momento especial que ficou marcado em sua memória nesses anos de trabalho com o RPG na Educação?

 

Inúmeros, mas vou selecionar três casos: 

Em 2011, um professor que havia passado pelo curso, estava lendo o plano de aula, como uma aventura solo, então eu gritei para dentro da sala "NÃO LEIA! SEU ALUNO JÁ ESTA ALFABETIZADO, ELE PODE LER SOZINHO, AGORA NARRE! MOSTRE ALGO QUE ELE NÃO CONHECE!", ele se apavorou e começou a narrar. Depois disso, se tornou tão próximo dos alunos, que nunca mais parou. Anos depois encontrei esse professor e ele me disse "até hoje eu aplico RPG na sala de aula".

Em 2013 estava trabalhando com uma aventura de valores humanos na escola, e ao final do jogo, um garoto de 10 anos disse: Quando eu vou poder ser professor? Eu disse: Depois que você formar em alguma faculdade. Ele disse: Não é isso, eu quero ser narrador.

Em 2014, após um professor de História passar pelo curso de formação, houve briga na escola porque os alunos não aceitavam mais ter aulas convencionais, se recursaram a assistir aulas até que houvesse um calendário sobre RPG na sala de aula. 

 

Numa frase, como resumiria o uso do RPG como instrumento pedagógico?

 

O RPG é o jogo do subjetivo humano, não seria estranho trabalhar com ele na escola, pelo central motivo da subjetividade ser tão fundamental a formulação da consciência humana e igualmente tão ignorada, por não se estruturar com a rigidez seriada de informações que muitos pseudo-educadores defendem. 

 

Você é o Editor da “Revista Mais Dados": publicação especializada sobre RPG e Educação, entre outras coisas. Como surgiu a ideia? Qual o objetivo da revista?

 

Surgiu do questionamento "por que as universidades não levam a sério estudos sobre RPG?" Pensando nisso, observei que não existia eventos específicos ou uma organização nas produções acadêmicas, que tornem o RPG visível para a comunidade científica. Então, assim começou essa aventura. O desafio de mostrará que o Brasil produz com seriedade pesquisa acadêmica sobre jogos que envolvam Role Playing, direta ou indiretamente.

 

Tem algum apoio para manter a publicação (Necessariamente, não falo de apoio financeiro, mas na logística, edição, etc.)? 


O apoio é a boa vontade de companheiros de causa, como revisores, pareceristas, e demais profissionais, uma lista enorme de pessoas que, sem eles, não seria possível mantê-la. Mas nenhum apoio financeiro. Penso que, futuramente, por meio da ONG, possamos buscá-lo.

 

Quais as principais dificuldades para mantê-la? 


Coletar uma boa quantidade de artigos em tempo hábil. Como é uma proposta nova e a revista ainda não tem a nota qualis (em 2015 conseguiremos !!!), assim como não é tão bem divulgada, poucas pessoas publicam. Também gostaria de ser menos severo em relação as publicações, mas mesmo a contra gosto sou obrigado a seguir as normas, o que me obriga a não aceitar ótimos e inovadores trabalhos. Mas, o maior desafio é encontrar uma Universidade Federal que aceite hospedar a Mais Dados em sua plataforma SEER (Se você é coordenador de curso ou Reitor, e está lendo isso, por favor, nos ajude).

 

Professor Rafael, agradecemos imensamente sua colaboração e paciência em responder às nossas perguntas.

 

Se você, leitor, quiser entrar em contato com o Professor Rafael Rocha, pode fazê-lo através do email: rafael.correia.rocha@gmail.com

 

Sugestões de pauta para esse espaço? escreva-nos: contato@rpgnaescola.com.br

 

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